TV Cultura Mineira
Santa Rita do Sapucaí

Como Sinhá Moreira transformou Santa Rita do Sapucaí no Vale da Eletrônica

Da escola técnica criada em 1959 às mais de 170 empresas de hoje: a história da mulher que apostou na eletrônica e mudou o destino de Santa Rita do Sapucaí.

Redação TV Cultura Mineira · 27 de outubro de 2026 às 15:57

Sede do Inatel, com o letreiro "I ❤ Inatel", em Santa Rita do Sapucaí
Imagem ilustrativaCC BY 2.0 · Wesley Sousa (ASCOM/MCTI) · Wikimedia Commons: File:08 04 2022- Visita as Instalações da INATEL (51997890981).jpg

Quem chega a Santa Rita do Sapucaí, no Sul de Minas, encontra uma cidade de pouco mais de 43 mil habitantes, com praça arborizada, rio cortando o centro e o ritmo calmo do interior. Por trás dessa paisagem funciona um dos principais polos de tecnologia do país: são mais de 170 empresas de base tecnológica e cerca de 17 mil empregos diretos, segundo o Sindicato das Indústrias de Aparelhos Elétricos, Eletrônicos e Similares do Vale da Eletrônica (Sindvel).

A história desse polo, conhecido como Vale da Eletrônica, começa com uma mulher que nasceu na cidade no início do século passado, viu o mundo e decidiu que o futuro dos jovens da sua terra passava por uma escola de eletrônica.

Rio Sapucaí no centro de Santa Rita do Sapucaí

Rio Sapucaí, em Santa Rita do Sapucaí. Foto: Py4nf/Wikimedia Commons (domínio público)

Imagem ilustrativaDomínio público · Py4nf · Wikimedia Commons: File:Rio sapucai santa rita do sapucai.jpg

Quem foi Sinhá Moreira

Luzia Rennó Moreira nasceu em Santa Rita do Sapucaí em 1907. Era filha do coronel Francisco Moreira da Costa, líder político da cidade, e de Dona Mindoca Rennó Moreira, e sobrinha de Delfim Moreira, que presidiu o Brasil entre 1918 e 1919. Na cidade, ficou conhecida simplesmente como Sinhá Moreira.

Retrato de Sinhá Moreira, sorrindo

Sinhá Moreira. Foto: Arquivo / ETE FMC

Acervo ETE FMC · uso autorizado pela ETE FMC em 27/10/2026 (informado pelo usuário)

Em 1929, aos 22 anos, casou-se com o diplomata Antônio Moreira de Abreu, seu primo. Segundo o diretor da ETE, Alexandre Loures Barbosa, em depoimento reproduzido pelo Sindvel, foi um casamento incentivado pela família. A vida diplomática levou Sinhá a morar e viajar por vários países, entre eles o Japão, algo raro para uma mulher brasileira da época.

Foi nessas viagens, segundo os relatos da família e da escola, que ela se convenceu de que a eletrônica seria uma das forças que iriam mover o mundo nas décadas seguintes.

A volta para Santa Rita

Sinhá voltou a morar definitivamente em Santa Rita do Sapucaí nos anos 1940 e passou a se dedicar à cidade. Ajudou a construir ruas, casas e escolas, fundou o Educandário Santarritense, ergueu o bairro Vista Alegre e pagou os estudos de jovens santa-ritenses em São Paulo, no Rio de Janeiro e em Belo Horizonte.

A preocupação era sempre a mesma: quem não tinha dinheiro para estudar fora acabava na lavoura. Ela queria que os jovens tivessem estudo e trabalho sem precisar deixar a cidade.

Os pobres me ensinaram as grandes lições da vida.

A frase, deixada por ela em testamento, é lembrada até hoje pela escola que fundou.

1959: nasce a ETE

No fim dos anos 1950, Sinhá decidiu criar em Santa Rita uma escola técnica de eletrônica. Para tirar o projeto do papel, buscou conselho com professores do Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), em São José dos Campos (SP), e fechou parceria com os jesuítas, que assumiram a direção pedagógica.

A Escola Técnica de Eletrônica Francisco Moreira da Costa, a ETE FMC, começou a funcionar em 1959 e leva o nome do pai dela. É apontada como a primeira escola de eletrônica de nível médio da América Latina. O projeto enfrentou muitas dificuldades no início, segundo o próprio histórico da instituição.

Fim de tarde na Escola Técnica de Eletrônica Francisco Moreira da Costa

Fim de tarde na ETE FMC, em Santa Rita do Sapucaí. Foto: lplemos26/Wikimedia Commons (CC BY-SA 3.0)

Imagem ilustrativaCC BY-SA 3.0 · lplemos26 · Wikimedia Commons: File:Final de plena segunda-feira.jpg

Sinhá Moreira não viu o tamanho do que havia começado. Ela morreu em 9 de março de 1963, aos 55 anos, vítima de câncer de mama, quatro anos depois da abertura da escola.

1965: o Inatel e a TV nas montanhas

O segundo passo veio em 1965, com a criação do Instituto Nacional de Telecomunicações (Inatel), idealizado pelo professor José Nogueira Leite. A proposta era ousada para uma cidade daquele tamanho: oferecer o primeiro curso de Engenharia de Telecomunicações do Brasil.

O momento era favorável. O país corria para se interligar por telefone e televisão, na mesma época em que nasciam a Embratel e a TV Globo. Nos primeiros anos, os professores do Inatel se dividiam entre as aulas e a instalação de transmissores no alto das serras, levando o sinal de TV de Belo Horizonte para o Sul e o Sudoeste de Minas.

Foi desse grupo de professores que saiu a Linear Equipamentos Eletrônicos, fundada em 1977 para fabricar transmissores de televisão. Ela é considerada a primeira empresa do Vale da Eletrônica e, mais tarde, passou a fazer parte do grupo japonês Hitachi.

Da sala de aula para a fábrica

A partir daí, o caminho se repetiu muitas vezes: alunos e professores das escolas da cidade transformavam projetos em produtos e abriam as próprias empresas. Nos anos 1980, o polo ganhou o nome que o acompanha até hoje. A expressão Vale da Eletrônica foi proposta pelo publicitário Sérgio Graciotti, em referência ao Vale do Silício, nos Estados Unidos.

Placa eletrônica em bancada de laboratório do Inatel

Placa eletrônica em laboratório do Inatel. Foto: Wesley Sousa/MCTI (CC BY 2.0)

Imagem ilustrativaCC BY 2.0 · Wesley Sousa (ASCOM/MCTI) · Wikimedia Commons: File:08 04 2022- Visita as Instalações da INATEL (51997952058).jpg

O Inatel começou a apoiar o empreendedorismo ainda nos anos 1980 e formalizou a sua incubadora de empresas em 1992. Segundo a instituição, metade das cerca de 170 empresas da cidade, 85 delas, nasceu dentro dessa incubadora. O município também mantém a sua própria incubadora, que leva o nome de Sinhá Moreira.

O Vale em números

Hoje, as empresas de Santa Rita fabricam de equipamentos de telecomunicações a sistemas de segurança. Os números mais recentes do setor, divulgados pelo Sindvel, mostram o tamanho do polo:

  • mais de 170 empresas de base tecnológica;
  • cerca de 17 mil empregos diretos;
  • faturamento de R$ 3,2 bilhões em 2024;
  • mais de 70% do mercado brasileiro de segurança eletrônica, com câmeras, alarmes, sensores, interfones, vídeoporteiros e portões eletrônicos;
  • dez fabricantes de equipamentos de telecomunicações, que empregam cerca de 3 mil pessoas.
Circuito eletrônico sob microscópio em laboratório do Inatel

Circuito analisado ao microscópio em laboratório do Inatel. Foto: Wesley Sousa/MCTI (CC BY 2.0)

Imagem ilustrativaCC BY 2.0 · Wesley Sousa (ASCOM/MCTI) · Wikimedia Commons: File:08 04 2022- Visita as Instalações da INATEL (51998428770).jpg

Grandes empresas do setor também mantêm parcerias com o Inatel, como Ericsson, Nokia e Huawei. A parceria com a Ericsson já passa de cinco décadas.

A cidade que vira palco

Além das fábricas, Santa Rita do Sapucaí passou a atrair público de fora com eventos de tecnologia. O maior deles é o HackTown, festival de inovação e criatividade que se espalha pela cidade em vez de ficar num centro de convenções.

A 9ª edição, de 31 de julho a 3 de agosto de 2025, reuniu 15 mil credenciados e cerca de 15 mil visitantes nas atividades abertas, com mais de 500 empresas, mil palestrantes e programação em mais de cem locais do município. A edição de 2026 foi realizada de 3 a 7 de setembro.

A cidade também recebe a Fivel, feira da indústria eletroeletrônica organizada pelo Sindvel, cuja 17ª edição foi realizada em outubro de 2025 na própria ETE, e a Fetin, feira de projetos dos estudantes do Inatel.

A história continua

O ritmo de novidades segue alto. Só nas últimas semanas, a 45ª Fetin reuniu mais de 4,3 mil visitantes e 130 projetos de estudantes, a feira de projetos da ETE apresentou 147 trabalhos, a equipe de robótica RobotBulls, do Inatel, conquistou três pódios na RCX 2026 e o Inatel reuniu 13 instituições no 4º Workshop Brasil 6G.

Robô com sensores ultrassônicos feito em laboratório do Inatel

Robô desenvolvido em laboratório do Inatel. Foto: Wesley Sousa/MCTI (CC BY 2.0)

Imagem ilustrativaCC BY 2.0 · Wesley Sousa (ASCOM/MCTI) · Wikimedia Commons: File:08 04 2022- Visita as Instalações da INATEL (51997951783).jpg

A memória de Sinhá Moreira também segue presente. Desde 2011, o Sindvel entrega a Comenda Sinhá Moreira a personalidades que contribuem com o Vale, e a avenida onde fica a ETE leva o nome dela. Mais de seis décadas depois, a aposta de uma mulher que viu o futuro nas viagens pelo mundo continua mudando o destino da cidade onde ela nasceu.

Com informações de ETE FMC, Sindvel, Inatel, Assembleia Legislativa de MG, Diário do Comércio, Teletime e Startupi

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